domingo, outubro 19, 2003

me levou para o inferno sem minha lucidez

Logo de início, passei um pouco mal e tive que deitar um pouco no chão. Acabei vomitando uma parte dos cubensis entre pedaços de pão com maionese. Talvez por isso os efeitos tenham sido bem brandos em minha pessoa, o que claramente me exige novo contato empírico para confirmação.
Não tiva quase nada de efeitos visuais. Vi algumas pequenas ondulações nas nuvens e o céu era lindo. Mas a mudança ocorreu principalmente no estado de espírito. De repente tudo vazia muito sentido, o caos era perfeito em sua desordem e nada mais importava. Tive a noção clara de que o tempo é uma convenção humana que eu não compartilhava, o tempo era infinito e eu podia passar a vida inteira ali entre aquelas plantas, aquelas cachoeiras e aqueles pequenos montes de fezes. Jogava longe todos os objetos que eu encontrava incluíndo meus tênis, meias e os malabares da Gil. Alias, um destaque especial merecem os malabares da Gil. Obviamente eu não consegui jogar mais que algumas e toscas vezes, mas me parecia que eu poderia perfeitamente ficar batendo com aquelas varetinhas por horas sem errar. Na verdade eu poderia perfeitamente fazer qualquer coisa. Mas não me importava fazer nada. Simplesmente sentar no chão, com a certeza e o orgulho de saber e poder tudo, olhando as pequenas flores roxas do pasto me parecia ótimo. O tempo todo eu tive consciência de que tudo aquilo era fruto dos cogumelos, mas isso também não me importava. O único interesse era no momento e no presente, o porvir era uma abstração sem graça.
Quando fomos ver as cachoeiras, a essa hora ja estávamos descalços, sem camisa e éramos hippies sujos, foi o ponto alto de interação da manhã. Vini e Maurício não paravam de falar em nenhum momento e as elocubrações quase sempre eram abstratas pra caralho tipo moral, ética e metafísica. As vezes um sentimento de união me impelia a conversar com eles, embora eu quase sempre só ouvisse. Outras vezes aquilo me incomodava e eu ia para algum lugar mais afastado fazer algo prazeiroso como molhar o corpo no rio e passar a mão nas pedras.
O processo de voltar a realidade foi muito gradual. Não dava pra saber se ainda tava rolando um efeito e o limite entre a realidade psilocíbica e a normal me pareceram muito estreitos. Ainda ta meio difícil lembrar tudo que aconteceu e saber quais pensamentos foram delírios cogumelóides e quais não foram. Mas também isso não parece importar, já que pensamentos são pensamentos e a lógica deles é o que lhes da valor.