quinta-feira, janeiro 08, 2004

medo e delírio em Superagüí

Superagüí tava delícia. Moradores muito gente boa, pessoas prestativas de bom coração e fanáticas religiosas que despertavam os preguiçosos com brados fortes de jesus é o senhor no dvdokê de deus. Como a vida em uma ilha parcamente habitada e longe umas 3 horas de qualquer cidade mediana não é fácil, o tédio deve invariavelmente se instaurar na mente dos nativos, em alguma coisa é preciso se agarrar. As igrejas e a cachaça são as preferências dos ilhados. Parecia que ou se é crente ou se é malandro. Conhecemos as duas espécies, com mais dedicação a segunda, é claro, que a identifiação é maior. Na primeira noite de akdov - concorrida e badalada noite regada a fandango e cerveja - conhecemos toda a nata da sociedade superaguense: um que dizia ganhar dinheiro das turistas em troca daquele aconchego caiçara que só o nativo poderia fornecer, um par de pessoas que pareciam psicopatas escondidos da polícia por terem enterrado a esposa na parede do banheiro, um cheirador de cola baladeiro que tentou afanar minha caneca plástica de ecologista preocupado, alguns dadores de teco atrás de farinha que decepcionaram-se com nosso naturismo psicotrópico e todo tipo e espécie de vagabundo. No segundo dia acho que toda a ilha sabia que tínhamos maconha e fomos alertados na praia por um cara para tomarmos cuidado com as companhias e com possíveis assaltos a nossas baracas. Esse mesmo cara, de aparencia louca e olhos vidrados, explicou que seu guarda-chuvas sem cabo servia para FURAR O BUCHO de sem-vergonha e que era preciso ter cuidado. Parece que é um costume local quando submetidos a uma situação de crise interpessoal, dizer que vai DAR UMA FACADA NA CARA, RETALHAR O FILHA DA PUTA, e radicalidades do tipo ao invez do tradicional vou te quebrar a cara que estamos acostumados. Isso, aliado ao ritmo quase mântrico do fandango com aqueles velhinhos batendo o pé no chão e resmungando cortejamentos para a moreninha e aliado também aos efeitos narcóticos das substâncias consumidas, conferia um caráter muito psicótico as noites akdovianas. simplesmente do caralho. Esse clima denso só vinha a ser abrandado pela alta presença de gatas quentes rebolando a fandagueira e atraíndo o gingado de Seu Alcides, ancião do ritmo local que não parava de dançar até que a última turista fosse embora. As nativas também marcavam presença com a bronzea pele de quem mora na praia atraíndo olhares e desejos. Até tentei uma aproximação, dedicado que estava a ser completamente inserido na cultura local, mas o totemismo tribal sabotou minha tentativa com um corpo de guarda mirins protegendo a donzela.
Apesar de a ilha estar bem vazia no domingo e a vontade de saber o que acontecia no resto do mundo muito presente no meu coração, ir embora foi doloroso. Ainda havia tanta coisa a se ver e conhecer que o remédio não pode ser outro além de voltar assim que possível. Levantei a possibilidade de me mudar pra lá assim que estiver disponível o acesso a internet banda larga, inclusive, porque a natureza é lida, o mar é reconfortante, mas a informação é necessária.