quarta-feira, maio 26, 2004

impressões de inferno e inverno

Das profundezas de meu ser sobe uma dor lancinante, que se prolonga em minha garganta e arde como se eu tivesse engolido um porta alfinetes. Meu estado de saúde é romântico. Como um bohemio tuberculoso em 1836, me arrasto pusilânime pela casa expelindo golfadas pestilentas de catarro, só aguardando a vinda do sangue grosso de meus pulmões putrefeitos. Toda a angústia e dor da minha existência, se resume, somaticamente, em gritos quase tão profundos quanto o silencioso berro do Edvard Munch, mas de forma tão ruidosa quanto a luta de um alien contra um predador. É esta a cena que se imagina ao me ouvir tossir: uma criatura extra-terrena se encontra alojada em meu sistema respiratório, até o dia em que a crisálida terminará sua evolução, deixará de ser latente, e rasgará minha caixa toráxica à procura da liberdade. Sofro, sofro muito.

Tal sofrimento poderia ser parcialmente aplacado se houvesse a possibilidade de eu residir apenas sob minhas cobertas, recebendo os sinceros cuidados de enfermeiras suaves e aguardando a chegada da indesejada mas inevitável ruína física, moral e psicológica. A morte seria misericordiosa com este pecador arrependido, me abateria rapidamente em uma parada respiratória decorrente das infecções. Ou a malvada me faria engasgar com porções generosas de secreções pulmonares em um momento de relapso das enfermeiras e então eu me debateria e convulsionaria inutilmente por alguns minutos, assumiria um tom levemente roxo pela falta de ar, levaria as mãos até a garganta num gesto débil, e assim pereceria, de uma forma feia e dolorosa, mas digna de meu sofrimento.

Mas não. A sociedade perversa que criamos não me concede nem mesmo o regozijo do desprazer honrado e romântico. A opção de ficar em casa e padecer não me é sequer ofertada. Ao contrário, me ofecerem dúzias de acepipes da indústria médico-farmacêutica, cebion, gripin, benegripe, vick, doril, antibióticos, lenços descartáveis e um cachecol. Tudo indolor, insípido e inodoro, para que sem mágoas eu volte a ser producente e a valer minha existência pela mais-valia. É preciso que eu retome meu papel de engrenagem, girando girando. Porra! parem o mundo que eu quero descer!

3 Comments:

At 4:14 PM, Blogger Guilherme said...

Caralho Mosca!

Na boa que tesão de post, mto bem escrito, apavorou. Bom ver o Mosca inspirado novamente. :)

 
At 5:49 PM, Anonymous Anônimo said...

porra mosca, piracao de qualidade mesmo!

 
At 10:42 PM, Blogger Rodrigo said...

valeu, galera!

 

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