segunda-feira, setembro 29, 2003

viver é sentir

Estava desde ontem a noite em um estado de grande ansiedade. Tenho o péssimo hábito de sofrer antecipadamente com as coisas e de ficar imaginando todas as piores possibilidades de resolução de uma situação ao saber que vou ter de enfrentá-la. Semana passada estive cheio de coisas pra fazer para a faculdade, para o centro acadêmico e pra mim. Então no fim de semana não fiz quase nada produtivo que fosse uma obrigação e não simplesmente para meu deleite. Foi uma escolha sábia, mas desde domingo a noite me preocupava o fato de eu ter que entregar o relatório do estágio (que não sei o que escrever, pois nada há a relatar), um registro de determinados comportamentos que eu devia ter feito de um paciente durante a semana, e ter lido dois capítulos razoáveis de um livro que me esqueci de procurar. Tudo isso pra poder discutir com minha supervisora, e planejar meu estágio daqui pra frente. Cheguei em casa domingo a noite, li uns emails, troquei umas idéias com o ceris no icq, e fui dormir me repreendendo por meu relapso. Hoje de manhã já acordei pensando nas desculpas que ia ter que dar. Tomei uns goles de café, bati uma punheta no banho pra melhorar o dia e saí, já um tanto conformado e não tão preocupado. Para meu espanto, o desenvolver do dia se revelou em cores. O relatório na verdade é para quarta-feira, o que me da tempo suficiente para emprestar o livro e ter umas idéias. A Psicóloga nem teve uma reação muito ruim ao saber que eu não tinha lido os capítulos nem estava de posse dos registros, e ainda acabamos combinando um trabalho muito legal de dessensibilização sistemática que vou fazer com um dos alunos. Terminada a supervisão, saí triunfante em direção a Van do transporte do estágio que me dá aquela carona amiga todos os dias. Como se não bastasse o triunfo que explodia em meu peito, a estagiária da tarde trouxe o delírio do seu cheirinho de menina ao já impregnado odor de urina dos bancos do carro. Regozijo senti. Tudo então foram flores. Mais adiante, ao deixar em casa um dos meninos, tranquei a passagem e disse tchau, já esperando a costumeira e quase sem som despedida do pequeno autista. O Guri se aproximou, me deu um beijo no rosto e saiu correndo para seu prédio, me largando ainda um sonoro tchau por cima dos ombros. Pouco depois, ao passar perto do shopping Curitiba, vi duas crianças uniformisadas - no máximo na quarta série do ensino fundamental - se beijando realmente quente. O Motorista sorriu pra mim. Nessa hora pude quase concordar com Carl Rogers e aquela história maconheira de tendência auto realizadora da vida. Sorri de volta.