vaginas engarrafadas
A mulher moderna cada vez conquista mais independência e avançou muito no desenvolvimento de suas potencialidades pessoais: além de lavar, passar e cozinhar, ainda faz artesanato e decora harmoniosamente a casa segundo os preceitos do Feng Shui. Isso explica a extrema segmentação do mercado editorial, onde vemos revistas de periodicidade freqüênte inteiramente dedicadas a assuntos específicos como cabelos crespos, imãs de geladeira em biscuit, cactos ornamentais, receitas com abóboras e som automotivo. Onde tínhamos uma revista Cláudia, que tratava de trabalho, família, sexo, casamento e planejamento financeiro, sempre do ponto de vista da mulher dedicada a constituir uma família como a do comercial da Doriana, conquistar um emprego onde seja valorizada e abocanhar um maridão dedicado e amoroso, hoje vemos dezenas de revistas dedicadas a cada técnica para a conquista da felicidade. A mulher é livre para escolher a quais estereótipos quer corresponder, montando o seu modelo personalizado de perfil consumidor com as peças disponíveis, como na compra de um automóvel e seus opcionais. Na verdade, nada ou pouca coisa mudou, mas a busca por uma realidade autêntica está vinculada a um modelo de liberdade vendido como um comodity nas lojas de departamento. Todo o setor careta da sociedade absorveu a subversão, como absorve qualquer produção humana desejável e, portanto, vendável, e agora oferece seu próprio padrão de liberdade devidamente pasteurizado e embalado em caixas longa vida. A fêmea contemporãnea pode portanto trabalhar fora de casa, para ajudar o marido e sustentar os filhos, tem sua liberdade sexual garantida pela opção de escolha nas posições da trepada, espiritualmente pode optar entre todas as cores do cristianismo, e mais um punhado de livros de auto-ajuda; até mesmo atividades tidas como masculinas a mulher pode desempenhar, desde que seja para provar que as meninas podem, tanto quanto os meninos, responder às necessidades da moral consensual. Enfim, as expressões são as mais diversas, porque o consumidor é exigente e quer escolher as cores e o modelo, mas os valores agregados têm de ser os mesmos, ou corremos o risco do desmoronamento social e a perda da estabilidade do mercado.


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