High Times 30 anos
A revista também tem leitores espalhados pelo mundo. Foi de um anúncio de uma marca canadense de roupas da "High Times" que o grupo carioca Planet Hemp tirou o próprio nome. Os anunciantes, aliás, são uma atração à parte e refletem o incentivo que a revista dá ao usuário para cultivar em casa a erva para consumo próprio, evitando o contato com traficantes. Mas nos Estados Unidos, assim como no Brasil, a pena para quem planta é a mesma aplicada a quem trafica. Três empresas do Canadá, primeiro país a liberar a maconha para fins medicinais, publicam anúncios de uma ou duas páginas sobre a venda de sementes de ervas pelo correio. O Seed Bank (!), por exemplo, exporta "sementes de vários tipos de maconha e cogumelos".
Um pequeno anúncio mostra sapatos, tênis e botas com compartimentos secretos na sola para serem usados ao gosto do freguês. E os campeões de esquisitice são os kits "infalíveis" para ninguém ser reprovado em testes antidroga, comuns em grande parte das empresas americanas desde 1986. "Escolha The Whizzinator, o número 1 em kits de substituição de urina", diz o anunciante de um kit para ser usado junto ao corpo durante o dia-a-dia no trabalho. Não é à toa que a revista faz questão de deixar claro que não tem nenhuma responsabilidade sobre os anúncios.
Há também propaganda de fornos, vaporizadores, aparelhos para eliminar odor, livros, CDs e DVDs sobre a erva, galerias de arte e pôsteres psicodélicos, escritórios de advocacia e uma organização que luta pela liberação da maconha. O anúncio mais inusitado é o da National Arbor Day Foundation, que dá dez razões para plantar uma árvore e oferece brotos de flores, um livro sobre cultivo e outros brindes para quem virar membro. Propagandas de ervas legais que se parecem com maconha - e tinham preços equivalentes - provocaram tantas reclamações de leitores que acabaram sendo proibidas na revista.
Para completar a edição de aniversário, há uma linha do tempo desde 1974 com a evolução da revista, da cultura da maconha e dos poucos passos dados para sua legalização, principal bandeira da "High Times". Estão registradas a descriminalização da erva na Holanda (1976), a revelação de que CIA tinha ligações com o tráfico de cocaína no escândalo Irã-Contras (1981), a criação da Cannabis Cup em Amsterdã (1988) e a decisão do Canadá de liberar a maconha para fins medicinais (2003).
As campanhas contra a erva e drogas mais pesadas criadas pelos ex-presidentes Ronald Reagan, George Bush e Bill Clinton também são citadas, assim como uma pesquisa da Universidade do Mississippi mostrando que a maconha de então (1985) tinha uma concentração de THC (o tetrahidrocanabinol, princípio ativo que causa dependência, deixa o raciocínio lento e atrapalha a memória recente e a coordenação de movimentos) dez vezes maior do que a erva dos anos 70.
"Muitas dessas pesquisas são invenção do governo americano, que tenta dar motivos para que pais hipócritas, que fumaram maconha nos anos 70, possam contar mentiras a seus filhos", acredita Bienenstock. O fato é que a maconha vicia como cafeína, e menos que álcool, e pode causar câncer, como o cigarro. Cerca de 147 milhões de pessoas fumam a erva regularmente no mundo. Deste número, 10 milhões são de americanos e cinco milhões, de brasileiros. A cada ano, 700 mil pessoas são presas por porte de maconha nos Estados Unidos. "Defendemos a descriminalização e o uso consciente. Claro que tudo o que é demais faz mal"
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